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O Número e a Fumaça: Quando o Satélite Vê e o Estado Ainda Precisa Agir

Na quinta-feira, 16 de outubro, o governo federal anunciou os números do PRODES, o sistema de medição por satélite do INPE: 3.335 km² de desmatamento na Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026, contra 5.731 km² no período anterior. Uma queda de 41,8%. No Cerrado, 5.516,69 km², queda de 23,8%. A Agência Gov, que publicou o anúncio, descreve o número da Amazônia como o menor da série, que começa em 1988. É uma boa notícia, e eu quero começar dizendo isso sem ironia.
Dois dias antes, a Amazônia Real tinha publicado outra coisa. A repórter Nicoly Ambrosio conta que o Ibama avalia que o fogo no Amazonas está sendo posto de propósito, para degradar a floresta e ampliar áreas de pasto, em propriedades privadas e em terra pública. Entre 1º e 13 de outubro, foram 1.608 focos, 84% a mais do que em 2025. Mais de 674 mil hectares queimados no ano. Setecentas e vinte e cinco propriedades rurais notificadas. Mais de 300 bombeiros em campo. A atribuição de intenção é do Ibama, e uma investigação da Polícia Federal e de inteligência segue aberta.
Duas notícias na mesma semana, uma que diz caiu, outra que diz queima. Este texto é sobre o espaço entre elas. É o espaço onde mora quem lê as duas e não sabe em qual acreditar com o corpo.
Os números não mentem, mas também não respiram
Não há contradição técnica entre as notícias. O PRODES mede um período fechado, que terminou em julho. Os focos de outubro pertencem a outro ciclo, e fogo e desmatamento medido por corte raso não são a mesma coisa. Um campo queimado pode ou não entrar, de imediato, na conta do PRODES. Quem trabalha com isso sabe. O governo anuncia uma medição, o Ibama descreve um presente. Ambos podem estar certos.
Mas as pessoas não leem relatórios técnicos com a cabeça separada do corpo. Quem vive em Lábrea, em Apuí, em Humaitá, em Boca do Acre, municípios que a reportagem da Amazônia Real cita, não vive em um período de medição. Vive em setembro e outubro, com o céu mudando de cor. A fumaça entra pela janela sem consultar a série histórica.
Penso nisso como uma diferença de escala do tempo. O satélite oferece um retrato de doze meses, limpo, comparável, assinado por uma instituição pública de ciência que o Brasil construiu ao longo de décadas, e isso não é pouca coisa. A pessoa que respira oferece um retrato de hoje. Quando o retrato anual é celebrado e o de hoje arde nos olhos, nasce um sentimento difícil de nomear: algo entre alívio e desconfiança, entre querer comemorar e ter medo de ser ingênuo por comemorar.
Eu sei que, no Brasil, esse sentimento tem história. Somos um país em que boa notícia oficial sempre teve que passar pelo teste do chão. Não por cinismo, mas por experiência acumulada. Quem tem a memória de uma promessa que não chegou aprende a esperar pelo que chega.
O que o governo afirma, o que ainda é promessa
Vale ser exato aqui, porque a exatidão também é uma forma de respeito. A queda é uma medição do INPE para um período encerrado. A caracterização como “maior queda histórica” é o relato do governo sobre o próprio programa, e é assim que deve ser lida: como informação de um interessado, ainda que baseada em um dado público e verificável. Já os R$ 7,8 bilhões ligados ao Fundo Amazônia são um compromisso, e o SIM-Biomas, sistema anunciado no mesmo comunicado, é descrito como futuro. Nenhum dos dois foi apresentado como entregue.
Isso importa para quem vive na floresta ou perto dela. Um compromisso não apaga fogo. Uma promessa de sistema de monitoramento não dá ao ribeirinho de Autazes ou de Careiro da Várzea nenhuma resposta sobre quem queimou o pasto vizinho nem quando alguém virá. O monitoramento por satélite é extraordinário em saber que algo aconteceu. O difícil, sempre, é o depois: a notificação, a fiscalização, a consequência, a presença do Estado de carne e osso.
Setecentas e vinte e cinco notificações são um número que mostra o Estado agindo. Ele não diz, ainda, quantas viram multa paga, quantas viram embargo respeitado, quantas viram nome em processo. Não porque o dado esteja escondido, mas porque ainda não está no que li. E o que não li, não afirmo.
O registro que o banco leu
Há uma terceira notícia na semana, e ela me parece a mais reveladora sobre o que significa ter um satélite e não ter consequência. A Repórter Brasil, em texto de Daniela Penha, com edição de Igor Ojeda, conta que o Banco do Brasil e o Sicredi liberaram cerca de R$ 8,5 milhões em crédito rural para a Fazenda Três Santos, em Uruçuí, no Piauí. A propriedade foi embargada pelo Ibama por desmate de, nas palavras da reportagem, “1,8 mil hectares de mata nativa de Cerrado”.
A cronologia é o centro da história. O Ibama identificou o desmate em 1º de agosto de 2024 e concluiu o auto de infração em outubro daquele ano. O Sicredi aprovou R$ 600 mil em 21 de agosto de 2024, vinte dias depois da identificação, e depois mais R$ 4,9 milhões. O Banco do Brasil aprovou R$ 3 milhões em julho de 2025. Em junho de 2026, o produtor emitiu R$ 55 milhões em CRA, títulos do agronegócio.
As duas instituições se explicam. O Sicredi diz que fez as análises cabíveis assim que a informação sobre a área se tornou pública e que não identificou alteração nas bases oficiais do Ibama e do Sicar Federal. O Banco do Brasil afirma que observa rigorosamente as exigências socioambientais do Manual de Crédito Rural e avalia com base em dados oficiais. São as versões dos bancos, e a reportagem as registra como tal. Nenhuma contesta o embargo. As duas se apoiam no que as bases oficiais mostravam no momento da decisão.
Não vou julgar quem tinha razão nesse caso específico, porque não tenho elementos além do que a reportagem traz e o que os bancos disseram. O que me interessa é a forma do problema. O satélite viu. O Ibama identificou. O desmate estava no registro público. E mesmo assim há uma distância entre o que o Estado sabe e o que se torna impedimento concreto no balcão onde o dinheiro é liberado. A informação existe; a ponte entre a informação e a decisão é que se mostra frágil, ou lenta, ou dependente de qual base está atualizada em qual dia.
Quem sente essa distância
Quem vive esse intervalo não é o dono da fazenda, nem o analista de crédito. É a pessoa cuja vida depende de que a floresta em pé continue em pé. A comunidade ribeirinha, o povo indígena, o quilombola que vê o limite do território recuar a cada safra, o morador do Cerrado piauiense cujo rio depende da mata nativa que foi derrubada. Para essas pessoas, a pergunta nunca foi se o satélite funciona. Funciona. A pergunta é: o que o Estado faz com o que viu?
Há um cansaço particular em ser aquele que vê primeiro. Muitas comunidades da Amazônia e do Cerrado denunciam desmatamento e fogo antes de qualquer sistema. Sabem do corte, sabem da fumaça, sabem o nome da fazenda. O satélite chegou depois, e com ele a esperança de que, enfim, a denúncia teria prova. Mas prova não é proteção. Uma imagem de satélite pode confirmar o que a comunidade já dizia e, ainda assim, nada mudar na semana seguinte. Esse é o tipo de desencanto que não aparece em nenhuma série histórica: o de ter razão sem que isso baste.
Aqui a lente da Amefricanidade me ajuda a não ficar numa leitura só otimista nem só amarga. Lélia Gonzalez nos ensinou a olhar a história a partir de quem sobreviveu a ela, e não de quem a escreveu. Os números do PRODES foram escritos por uma instituição pública de ciência, e merecem respeito por isso. Mas a pergunta amefricana continua de pé: quem ganha, quem paga? Quando o desmatamento cai, quem ganha primeiro? E quando o fogo volta, quem paga primeiro com a respiração, com a roça, com a casa?
A palavra “queda” e a palavra “ainda”
Eu não quero diminuir a queda. Uma redução de 41,8% medida por um sistema público em que o país confia merece ser lida como o que é: um dado real sobre um período real. Houve gente trabalhando para isso, em campo, em laboratório, em fiscalização. Reconhecer esse trabalho é parte de manter a confiança nos números, e a confiança nos números é um bem comum que se perde com facilidade.
Mas também não quero que a palavra “queda” faça o trabalho de apagar a palavra “ainda”. Ainda queima. Ainda há crédito liberado a propriedade embargada. Ainda há um sistema, o SIM-Biomas, que é promessa. A boa notícia e a má notícia não se anulam. Convivem, como convivem em tanta coisa que acontece neste país.
Talvez o que as pessoas sintam e ainda não consigam dizer seja isto: quero acreditar, e quero que acreditar me custe menos do que já custou. Quero que, quando o governo disser que o desmatamento caiu, eu possa respirar de verdade. Quero que o banco que empresta com dinheiro público leia o registro que o Estado fez. Quero que a notificação vire consequência. Quero que ver e agir andem no mesmo passo.
Na tradição do terreiro, o que se planta só vale se for cuidado depois. A semente não é a colheita. Um satélite que vê é semente. O cuidado é tudo o que vem depois dele, e esse cuidado é feito de gente: fiscal, bombeiro, analista de crédito, vizinho, liderança comunitária. A tecnologia mede. Quem decide o que a medição significa somos nós.
Se você mora perto do fogo, ou perto de uma terra que foi desmatada, qual dos dois retratos se parece mais com o que seus olhos veem: o do ano que passou ou o desta semana?
Axé. 🌿
Fontes
- Agência Gov, “Brasil anuncia a maior queda de desmatamento na Amazônia e no Cerrado desde 1988”, 16/10/2026 — https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202610/brasil-anuncia-a-maior-queda-de-desmatamento-na-amazonia-e-no-cerrado-desde-1988
- Repórter Brasil, Daniela Penha (edição de Igor Ojeda), reportagem sobre crédito rural do Banco do Brasil e do Sicredi à fazenda embargada em Uruçuí (PI), 14/10/2026 — https://reporterbrasil.org.br/2026/10/bb-sicredi-credito-fazenda-ibama-desmate-ilegal/
- Amazônia Real, Nicoly Ambrosio, “Ibama identifica uso do fogo para ampliar desmatamento e pastagens no Amazonas”, 14/10/2026 — https://amazoniareal.com.br/ibama-identifica-uso-do-fogo-para-ampliar-desmatamento-e-pastagens-no-amazonas/