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O Abismo Invisível: A Política Digital que Ignora as Margens

Enquanto os corredores de Brasília discutem a arquitetura de um futuro conectado, a realidade brasileira desenha um mapa de exclusões que a tecnologia, sozinha, não tem o poder de apagar. Um levantamento recente do Tribunal de Contas da União (TCU) revela que o Brasil ainda caminha no escuro em relação à coordenação de suas políticas de inclusão digital. O Plano Nacional de Inclusão Digital (PNID), a bússola que deveria orientar essa jornada, ainda está em fase de formulação, deixando um vácuo onde a desigualdade se aprofunda.
Os números são o retrato de um país fragmentado. Em 2025, 28 milhões de brasileiros permaneciam à margem do universo digital. Mas o abismo não é apenas uma questão de números; é uma questão de geografia e classe. Se 86% dos lares brasileiros possuem algum tipo de acesso à internet, esse dado esconde uma clivagem perversa: a tecnologia que une as metrópoles é a mesma que deixa o campo e a periferia no isolamento.
A pesquisa do TCU é contundente ao traçar o perfil de quem fica para trás. Enquanto a conectividade avança, o acesso a ferramentas essenciais — como o computador — é um luxo de poucos. Se a média nacional de lares com computadores é de 32%, essa cifra desmorona para apenas 10% nas classes D e E e para 15% nas zonas rurais. É aqui que a “Amefricanidade” da nossa análise encontra sua prova mais dura: o acesso à informação, base da cidadania moderna, é distribuído de forma que penaliza justamente as populações que historicamente já enfrentam as maiores barreiras de soberania e direitos.
Há também o custo invisível da conectividade precária. A mobilidade digital, muitas vezes dependente de pacotes de dados limitados, não é uma via de mão única para o progresso. Para milhões de brasileiros, a jornada de sobrevivência digital é interrompida pelo fim do plano de dados. O TCU aponta que 64 milhões de pessoas ficaram sem dados móveis pelo menos uma vez em três meses. Para o trabalhador da periferia ou o agricultor do interior, o fim do pacote de dados não é apenas um inconveniente técnico; é o corte abrupto de sua participação no mundo.
Ao analisarmos o quem ganha / quem paga desta dinâmica, o cenário é claro. Ganham os grandes centros, as economias já digitalizadas e o Estado que tenta organizar o que já está em curso. Pagam as comunidades rurais, os jovens das periferias e as classes mais baixas, que dependem de uma infraestrutura fragmentada e de políticas que ainda não chegaram ao chão da prática.
A falta de um registro centralizado de iniciativas de inclusão digital, apontada pelo Tribunal, é mais do que uma falha burocrática; é um risco de sobreposição de esforços que ignora as necessidades reais de quem está na ponta. Sem uma coordenação que olhe para o território e para a classe, o Brasil corre o risco de construir uma “escada quebrada” digital: uma estrutura que promete ascensão, mas cujos degraus terminam exatamente onde a vulnerabilidade começa.
O desafio não é apenas conectar pessoas, mas garantir que a conexão não seja apenas um consumo efêmero de dados, mas uma ferramenta de soberania e dignidade. Se o PNID não for capaz de ler o Brasil que habita as classes D, E e o interior profundo, estaremos apenas digitalizando o abismo.
Fonte: Tribunal de Contas da União, 21/09/2026 (Acórdão 2557/2026 — Plenário).