“Provavelmente Só Vai Piorar”: IA Reduz Emprego Jovem em 5% e Brasil Enfrenta Gargalo de Formação Profissional
São Paulo, abril de 2026. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) verificou que os jovens de 18 a 29 anos que atuam nos setores mais vulneráveis aos impactos da chegada da tecnologia têm quase 5% menos chances de conseguir um emprego do que antes da IA. As áreas consideradas mais expostas são serviços de informação, comunicação e financeiros. “Eles estão, justamente, em trabalhos que trabalhadores mais seniores usam para tomar as suas decisões. Você precisa de um jovem para montar uma tabela, um gráfico, escrever um resumo”, aponta Daniel Duque, pesquisador-associado do Ibre. “São trabalhos que podem até ser qualificados e exigir algum tipo de qualificação, mas são um tanto mais burocráticos e são os mais facilmente substituídos pela IA, que pode fazer as coisas mais rápido, mais barato e, muitas vezes, melhor.” Os profissionais com mais experiência e na etapa final da carreira parecem poupados — pelo menos por enquanto. A análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad), do IBGE, mostrou que as faixas de 30 a 44 anos e de 45 a 59 anos foram pouco ou nada afetadas. Os cargos “sêniores” envolvem mais responsabilidade, capacidade de análise e tomada de decisão que, mesmo nas áreas mais vulneráveis, estão menos suscetíveis à substituição pela IA. Já para os jovens, os impactos começaram a ser sentidos no ano seguinte ao surgimento da inteligência artificial generativa de massa, com o chatGPT, no fim de 2022, e se aprofundaram em 2024 e 2025, com a aparição de outros robôs, como Claude e Gemini. “Provavelmente só vai piorar”, aposta. “Um dos aspectos dessa grande mudança que a gente está vendo é que a adoção da IA está sendo mais rápida do que a adoção de várias outras tecnologias no passado. Tanto o computador, quanto a internet foram sendo adotadas muito mais lentamente do que a IA está sendo, e é por isso que o efeito no mercado de trabalho está sendo muito rápido.”
Nos países desenvolvidos, onde a automatização do trabalho é mais acelerada, o recrutamento de jovens desenvolvedores já chegou a cair até 20%, constataram pesquisadores do Laboratório de Economia Digital de Stanford, nos Estados Unidos, em novembro de 2025. Em média, a queda da empregabilidade foi de 16% nos setores mais expostos. Na França, um estudo publicado em março pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee) revelou números semelhantes, mostrando que as empresas europeias já delegam à IA uma parte do trabalho que costumava ser realizado pelos “júniores”, como tratamento de dados e redação. “O Brasil está um pouco menos exposto do que os países desenvolvidos, mas existem as questões da substituibilidade, que é o quanto a pessoa é altamente substituível pela IA, e da complementaridade, ou seja, o quanto o trabalho dela é complementar ao da IA. Nisso, o Brasil está um pouco pior, porque entre as ocupações expostas, há um maior grau de exposição por substituição”, aponta Daniel Duque. “É um problema que o país vai enfrentar.” A razão é a baixa qualificação da mão de obra no país: para ser complementar à IA, é preciso ter o domínio da tecnologia. Na França, a Associação Nacional de Recursos Humanos (ANDRH) notou, ainda, que algumas empresas têm optado por diminuir o número de estagiários e, no lugar, incentivar os funcionários a aumentar o uso da inteligência artificial.
Sob a lente da Amefricanidade, essa dinâmica revela padrões conhecidos de extração e exclusão. Justiça/Reparação exige que nomejemos quem se beneficia e quem paga o custo. Quem se beneficia da IA? As empresas. Os acionistas. Os profissionais seniores que delegam o trabalho burocrático e focam em decisão. Quem paga o custo? Os jovens. Os que estão entrando agora. Os que precisam de experiência para construir trajetória. Os que vão ficar sem liderança em quem se espelhar. Os que não vão aprender a tomar as decisões que os seniores estão tomando. Justiça para quem? Coletividade demanda que a tecnologia sirva ao florescimento comum — não à produtividade isolada. Quando as empresas diminuem o número de estagiários e incentivam o uso de IA, estão otimizando o presente. Estão extraindo eficiência. Mas estão destruindo o futuro. Estão quebrando a corrente de transmissão de conhecimento. Estão dizendo: não precisamos de vocês. O Bem Viver pergunta: que futuro é esse que não tem lugar para os jovens? Que prosperidade é essa que exige sacrifício intergeracional?
O pesquisador Daniel Duque aponta o risco de longo prazo: “É um problema grande, porque é muito bem documentado que essas primeiras experiências no mercado de trabalho vão determinar, em grande parte, a sua trajetória toda no mercado de trabalho. Se você tira os trabalhadores do mercado nesse momento mais cedo da carreira, eles não vão formar experiências, não vão ter uma liderança em quem se espelhar depois e, com isso, não vão aprender a tomar as decisões que os seniores estão tomando”. Isso é o que o terreiro chamaria de quebra de ancestralidade. É o quilombo sem transmissão. É a comunidade que não cuida dos mais novos. No terreiro, o conhecimento passa de geração em geração. O mais velho ensina o mais novo. O mais novo aprende fazendo, observando, errando, corrigindo. Se você tira o mais novo do terreiro — se você diz que ele não é necessário, que a IA faz mais rápido, mais barato, melhor — você quebra a corrente. Você interrompe a continuidade. E no futuro, quando os seniores se forem, quem vai estar lá? A IA? Mas a IA não tem corpo. A IA não tem ancestralidade. A IA não pode cuidar do terreiro.
Ao aplicar os valores da House of 7, emergem perguntas incômodas. Não-Violência/Cuidado — a IA está causando dano? Sim. Está reduzindo emprego jovem. Está ameaçando formação profissional. Está quebrando a transmissão de conhecimento. Isso é violência estrutural. É o sistema dizendo: você não é necessário. É a tecnologia substituindo o humano não onde ele é dispensável, mas onde ele está aprendendo a ser indispensável. Verdade/Axé — a verdade é que a adoção da IA está sendo mais rápida do que a adoção de várias outras tecnologias no passado. Tanto o computador, quanto a internet foram sendo adotadas muito mais lentamente. E é por isso que o efeito no mercado de trabalho está sendo muito rápido. A verdade é que o Brasil está um pouco pior do que os países desenvolvidos, porque entre as ocupações expostas, há um maior grau de exposição por substituição. A verdade é que “provavelmente só vai piorar”. A verdade precisa ser dita inteira. Dignidade/Autonomia — os jovens têm direito a construir sua trajetória profissional. Têm direito a aprender. Têm direito a errar, a observar, a crescer. Quando a IA toma o espaço de aprendizagem, está violando essa autonomia. Está dizendo: você não precisa aprender. A IA já sabe.
Olhando para o contexto brasileiro, a notícia revela algo mais profundo. O Brasil já é um país de desigualdade intergeracional. Os jovens negros e periféricos já enfrentam barreiras enormes para entrar no mercado de trabalho. A taxa de desemprego jovem no Brasil é historicamente alta — e agora a IA chega para reduzir ainda mais as chances. Quem são esses jovens de 18 a 29 anos nos setores de informação, comunicação e financeiros? Quantos são negros? Quantos são periféricos? Quantos são os primeiros da família a chegar ao ensino superior? A IA não chega num terreno neutro. Ela chega num terreno já marcado por desigualdade. E o efeito não é neutro. É concentrado. É os que já estavam em desvantagem ficando ainda mais para trás. Isso não é inovação. Isso é reprodução de desigualdade com tecnologia de ponta. Isso é o mesmo Brasil de sempre, só que com IA.
Enquanto isso, o Congresso Nacional avança na regulação. O Projeto de Lei nº 2.338/2023, que estabelece diretrizes para o desenvolvimento e uso da tecnologia, está “90% endereçado”, segundo o relator deputado federal Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). A previsão é de votação na Câmara entre o fim de abril e o início de maio. O objetivo é criar um modelo de governança para a inteligência artificial capaz de proteger os direitos do cidadão sem sufocar a inovação tecnológica. Mas há uma pergunta que o projeto não responde: protege quais direitos? O direito ao trabalho? O direito à formação? O direito de aprender fazendo? Ou apenas os direitos de propriedade, de inovação, de mercado? A regulação é importante. Sim. Mas regulação sem justiça é apenas ordem. É apenas governança. É apenas estrutura. E a estrutura, sozinha, não cuida dos jovens. Não cuida do terreiro. Não cuida do futuro.
A pergunta que fica, depois dos 5%, depois do “provavelmente só vai piorar”, depois da comparação com França e Estados Unidos, é simples e profunda: que Brasil estamos construindo? Um Brasil onde a IA produz mais, mas os jovens trabalham menos? Um Brasil onde a eficiência ganha, mas a formação perde? Um Brasil onde o futuro é produtivo, mas não tem lugar para os que vão herdá-lo? Ou podemos imaginar outro caminho? Um caminho onde a IA é complementar, não substituta? Onde os jovens aprendem com a IA, não são substituídos por ela? Onde o conhecimento passa, a corrente não quebra, o terreiro continua? A tecnologia é rápida. A adoção é acelerada. Mas o cuidado — o cuidado é lento. O cuidado exige tempo. Exige presença. Exige transmissão. E se a gente não cuidar disso agora, se a gente não frear a corrida, se a gente não colocar o jovem no centro — o futuro chega. Mas o futuro chega vazio. Chega sem gente. Chega só com IA.
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