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Seu Rosto à Venda: A Foto que Você Não Sabia que Tinha

Imagine uma manhã comum no Parque da Jaqueira, no Recife. Você chegou cedo para correr antes do calor, com o fone no ouvido, o cabelo preso de qualquer jeito, a camiseta velha que só serve para isso. Ninguém está olhando para você, e é justamente por isso que o parque faz bem: é um dos poucos lugares em que o corpo pode ser apenas um corpo cansado, sem plateia. Só que, segundo reportagem de Maria Carolina Santos, publicada pelo Marco Zero Conteúdo em 29 de outubro, há alguém olhando sim. E a foto que ele tira de você pode estar, nesse momento, à venda.
A porta: o que a reportagem encontrou
De acordo com o Marco Zero Conteúdo, fotógrafos contratados pela Foco Radical, empresa de Florianópolis, fotografam pessoas que se exercitam no Parque da Jaqueira sem pedir autorização antes. As imagens são vendidas por meio de uma plataforma cuja busca exige algo curioso: para encontrar suas próprias fotos, o comprador precisa enviar uma fotografia frontal do próprio rosto. A Foco Radical guarda as imagens e, conforme o relato da reportagem, o consentimento só é buscado depois da captura, do envio e da indexação.
Os números dão a textura do negócio. São cerca de 15 fotógrafos, que trabalham em turnos. Eles ficam com algo entre 50% e 75% de cada venda; o restante é dividido entre a plataforma e a Viva Parques, concessionária que administra quatro parques do Recife desde 2025 e que, segundo a reportagem, informa que a parceria data de julho de 2026. As fotos custam de R$ 9,90 a R$ 12,90, ou R$ 20 em eventos especiais.
Há uma divergência dentro da própria reportagem que vale registrar sem resolver. A Foco Radical afirma orientar seus fotógrafos a obter o consentimento de quem é fotografado. A Viva Parques, por sua vez, diz que a operação não se baseia em coletar consentimento individual prévio antes de cada foto, e nega ter recebido qualquer instrução anterior sobre o tema. As duas versões estão no texto; eu não tenho como arbitrar entre elas, e não vou fingir que tenho.
A especialista em direito e tecnologia Raquel Saraiva, cofundadora do IP.rec, sustenta que a LGPD exige autorização antes da captura, e não a remoção depois. A Prefeitura do Recife, conforme a reportagem, não liberou o Plano Operacional e Comercial da concessão, alegando sigilo comercial. A ANPD foi procurada e não respondeu.
O rosto como produto e como chave
O detalhe que mais me prende não é jurídico, é quase poético, de um jeito incômodo: o mesmo dado capturado sem pedir é o dado que você precisa entregar para descobrir o que foi capturado. O rosto é a mercadoria e é a chave da loja. Para saber se existe uma foto sua à venda, você precisa oferecer seu rosto a um sistema que você não escolheu, de uma empresa que você não conhece, com regras que você não leu. A pergunta “o que vocês têm de mim?” só pode ser feita pagando com mais de você.
Eu não sei o que esse mecanismo faz com a foto de busca depois que ela é enviada. A reportagem não diz, e não vou inventar. Mas a estrutura do gesto já ensina algo: quem quer saber precisa se expor. Quem não quer se expor não sabe.
O que se sente e ainda não se diz
Penso em quem frequenta a Jaqueira. Gente que corre, que caminha com a mãe idosa, que faz aula de funcional ao ar livre porque a academia não cabe no orçamento. O parque público é, para muita gente, a academia, o consultório e o espaço de convivência ao mesmo tempo. Quando o parque é concedido, e quando a concessão traz consigo uma câmera que não se anuncia, algo muda na textura do descanso, mesmo para quem nunca vai descobrir que foi fotografado.
Há um sentimento que ainda não tem nome corrente, e que eu tentaria descrever assim: a vigilância gentil. Ninguém está te proibindo de nada. Ninguém te persegue. É só um moço simpático com uma câmera grande, ganhando a vida, e uma foto de R$ 9,90 que talvez você até queira comprar. É justamente essa banalidade que torna a coisa difícil de nomear e, por isso, difícil de recusar. Dizer “isso me incomoda” soa exagerado diante de uma foto de corrida. E, no entanto, o incômodo existe, e ele está na distância entre ser visto e ser consultado.
Também penso nos 15 fotógrafos. A reportagem os descreve trabalhando em turnos, ficando com 50% a 75% de cada venda. Não conheço nenhum deles e não quero transformá-los em vilões: são trabalhadores numa cadeia em que a plataforma, a empresa e a concessionária ficam com o resto. É o desenho clássico do trabalho pago por plataforma, com a face de quem aborda as pessoas no parque sendo a face de quem menos controla as regras. Se alguém se irrita com a câmera, é ele quem ouve. Quem desenhou o sistema não está na grama.
Uma lente: consentir depois não é consentir
Na tradição que carrego, a do terreiro, certas coisas só se fazem com licença. Entra-se pedindo. Pede-se licença à casa, ao espaço, a quem veio antes. A licença não é formalidade: é o gesto que reconhece que o outro existe e tem direito sobre si. Um sistema que fotografa primeiro e pergunta depois inverte essa ordem. O pedido de consentimento posterior, nos termos descritos pela reportagem, é um pedido a quem já foi tomado.
Essa inversão pesa mais sobre uns do que sobre outros, e preciso ser exato aqui: a reportagem não diz quem, entre os frequentadores, é mais atingido, e eu não tenho dados para afirmar isso. O que a lente da Amefricanidade me obriga a perguntar é outra coisa: quem, no Recife, tem advogado para exigir remoção? Quem sabe que a LGPD existe? Quem tem tempo e energia para enviar a própria foto a uma plataforma, procurar as imagens e pedir que sejam apagadas? O direito à remoção depois é, na prática, um direito de quem tem recursos para exercê-lo. A autorização antes, que é o que Raquel Saraiva defende, protege todo mundo igualmente, inclusive quem nunca vai saber.
Outro rosto, outra semana
Na mesma semana, a Agência Brasil informou que a Anatel aprovou a exigência de validação biométrica facial, com prova de vida, para titulares de linhas de celular, cruzando o rosto com bases de dados públicas e privadas. O objetivo declarado pela agência é prevenir fraudes. Os prazos reportados são todos futuros: 30 de setembro de 2027 para novas linhas pré-pagas, 31 de dezembro de 2027 para novas linhas pós-pagas, portabilidades e trocas de chip, e janeiro de 2029 para quem já tem linha e ainda não se cadastrou. Linhas fora da regra poderão ser suspensas e canceladas, sem data informada. Nenhum dos dois veículos que li, a Agência Brasil e o Diário do Comércio, que republicou o texto, descreve os procedimentos alternativos para quem não consegue concluir a biometria.
Não estou dizendo que as duas notícias sejam parte da mesma história. Não são, e não há nada nas fontes que as ligue. A norma da Anatel é uma regra pública, com prazos e um objetivo declarado; o caso da Jaqueira é uma prática comercial cuja legalidade está em disputa. Mas elas se encontram num ponto que me importa: em ambas, o rosto vira o documento. Numa, por exigência do Estado; na outra, por oportunidade do mercado. Para o cidadão, a consequência prática pode ser parecida: seu rosto passa a ser a coisa que você oferece para existir nos sistemas, e a coisa que você nunca sabe quem mais guarda.
Aqui eu preciso ser cuidadoso. A norma da Anatel ainda não afetou ninguém: segundo as fontes, nenhum assinante foi cadastrado, nenhuma linha foi cancelada. É uma regra aprovada e um calendário. O que me interessa agora é a pergunta anterior à aplicação: quando chegar 2029, quem terá dificuldade com a câmera, com a luz, com a conexão, com um rosto que o algoritmo lê mal? As fontes dizem que haverá procedimentos alternativos, mas não os descrevem. Esse silêncio é onde mora a pergunta.
Onde termino
Voltemos à corrida na Jaqueira. O que me fica depois de ler a reportagem não é indignação, é uma espécie de saudade antecipada: a do anonimato leve de quem corre sem ser notado. Talvez esse anonimato nunca tenha sido um direito formal, mas era um costume, um pacto tácito de que num parque público você pode ser só você. O que a reportagem de Maria Carolina Santos documenta é a erosão discreta desse pacto, ao preço de R$ 9,90.
Se a lei, como sustenta Raquel Saraiva, exige autorização antes da captura, então a pergunta que sobra para a ANPD, que ainda não respondeu, e para a Prefeitura, que ainda não abriu o plano da concessão, é simples: por quê, e até quando? E para quem corre no parque, a pergunta talvez seja mais íntima: o que você faria se soubesse? Se você já foi fotografado num parque, numa rua, numa festa, e depois encontrou a própria imagem à venda, me conte como foi. Eu gostaria de saber como esse sentimento, que ainda não tem nome, soa na voz de quem o viveu.
Axé. 🌿
Fontes
- Marco Zero Conteúdo, Maria Carolina Santos, “Fotos tiradas sem autorização no Parque da Jaqueira são vendidas na internet e violam lei”, 29/10/2026 — https://marcozero.org/fotos-tiradas-sem-autorizacao-no-parque-da-jaqueira-sao-vendidas-na-internet-e-violam-lei/
- Agência Brasil, “Biometria facial será obrigatória para usuários de telefonia móvel”, 29/10/2026 — https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-10/biometria-facial-sera-obrigatoria-para-usuarios-de-telefonia-movel
- Diário do Comércio (com crédito à Agência Brasil), “Biometria facial será obrigatória”, 29/10/2026 — https://diariodocomercio.com.br/legislacao/biometria-facial-sera-obrigatoria/