O Lede: Dois Brasis Energéticos
Enquanto a Amazônia queima, o Norte do Brasil se prepara para alimentar os monstros de dados da inteligência artificial. Amazon, Microsoft e ByteDance investem bilhões — mas quem fica com a energia, e quem fica com a fatura?
Imagine dois mapas sobrepostos do Brasil. No primeiro, os pontos luminosos de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília — os centros de poder econômico onde as decisões sobre IA são tomadas. No segundo, as linhas de gasodutos cruzando o Maranhão, as termelétricas no Amazonas, as comunidades quilombolas e indígenas cujas terras são atravessadas pela infraestrutura que alimenta os data centers.
Estes dois mapas raramente aparecem juntos nas manchetes sobre o “boom da IA no Brasil”. Mas é exatamente nesse espaço entre eles — entre o discurso do progresso e a realidade da extração — que a verdadeira história está sendo escrita.
Enquanto o mundo celebra o Brasil como o “paraíso da energia renovável” para IA, uma conta silenciosa está sendo acumulada. E como sempre, ela não será paga por quem mais se beneficia.
Os Números: Uma Explosão de Demanda
Os dados são staggering, para usar um termo do inglês que os executivos de Big Tech adoram:
- 2023: Data centers no Brasil consumiam 707 MW de energia
- 2030: Projeção de 2.157 MW — um aumento de 23 vezes
- 2035: Potencial de 13.2 GW de demanda
- AWS sozinha: US$ 1,8 bilhão em investimentos até 2027
Microsoft, ByteDance (a chinesa dona do TikTok), e outras gigantes estão na corrida. O Brasil é “atrativo” — a palavra aparece em todos os relatórios de consultoria. Temos uma matriz energética que é quase 90% renovável. Hidrelétrica, eólica, solar, biomassa. Um sonho para empresas que precisam justificar suas pegadas de carbono para investidores do Norte Global.
Mas há um problema. E ele revela muito sobre como o “progresso” funciona neste país.
A Contradição: Renovável no Discurso, Gás na Realidade
Data centers de IA não podem falhar. Eles precisam de 99,982% a 99,995% de disponibilidade anual. Isso significa menos de duas horas de indisponibilidade por ano. Energia solar não funciona à noite. Eólica depende do vento. Hidrelétrica depende da chuva — e o Brasil já viveu crises hídricas que levaram a apagões.
A solução? Gás natural. “Energia firme”, chamam nos relatórios técnicos. O Complexo GNA no Maranhão — uma das maiores termelétricas a gás do país — é apresentado como “essencial para a transição energética sustentável”.
Pausa. Respire.
Gás natural como parte da “transição energética sustentável”.
Enquanto isso, no mesmo Maranhão, comunidades quilombolas lutam contra a expansão de infraestrutura de gás que atravessa suas terras. No Amazonas, o gás é extraído em áreas próximas a territórios indígenas. A conta do “progresso” tem CEP definido.
Amefricanidade: Quem Dança, Quem Paga a Orquestra
Aqui precisamos fazer as perguntas que o discurso do “boom da IA” não faz:
Quem se beneficia? As ações da Amazon sobem. Os acionistas da Microsoft recebem dividendos. Os executivos de Big Tech anunciam “compromissos de sustentabilidade” em conferências em São Paulo. Os data centers processam dados que servem principalmente usuários do Norte Global — buscas, compras, streams, modelos de IA treinados com dados do mundo inteiro mas cujos lucros fluem para Seattle, Redmond, Pequim.
Quem paga? As comunidades do Maranhão cujas terras são atravessadas por gasodutos. Os ribeirinhos do Amazonas que vivem perto de plataformas de extração. O sistema energético público brasileiro, que precisa garantir “firm energy” para empresas privadas. O meio ambiente, que absorve mais emissões de carbono em nome da “IA sustentável”.
Isto não é acidente. É padrão. É a mesma lógica que extraiu ouro, açúcar, borracha, minério — e agora extrai energia renovável para alimentar algoritmos que não foram feitos para servir o povo brasileiro.
Chamamos isso de colonialismo digital. A infraestrutura é nossa. A energia é nossa. Os dados, muitas vezes, são nossos. Mas os lucros? As decisões? O controle? Esses cruzam o Atlântico em cabos de fibra ótica, rumo a sedes corporativas que nunca pisaram no solo que as sustenta.
A Pergunta do Terreiro: Regular para Quem?
O Brasil debate regulação de IA. O PL 2338/2023 tramita no Congresso. A ANPD ganhou autonomia. Mas onde está a discussão sobre a infraestrutura física que torna a IA possível?
No terreiro, quando tomamos uma decisão, perguntamos: quem está fora da roda? Quem não foi convidado? Quem não tem voz?
Na discussão sobre data centers e IA, os ausentes são os mesmos de sempre:
- As Mães de santo do Maranhão, cujos terreiros ficam no caminho dos gasodutos
- Os jovens da favela, que sonham em trabalhar com tecnologia mas não têm acesso à formação
- Os Yanomami, cujas terras são cobiçadas por minérios que alimentam a infraestrutura digital
- As entregadoras de app, cujo trabalho é gerenciado por algoritmos que elas não podem ler
- Os estudantes de Manaus, que aprendem a programar enquanto a floresta queima ao redor
Regular a IA sem regular sua infraestrutura é como regular o trânsito sem perguntar quem construiu as estradas, quem as usa, e quem foi desapropriado para que elas existissem.
Reflexão da Casa: Bem Viver para Quem?
Os valores da House of 7 nos convidam a olhar mais fundo:
Coletividade: O bem comum está sendo servido, ou o bem corporativo? Data centers trazem empregos — quantos, de que tipo, para quem? A energia que poderia iluminar escolas e hospitais está sendo direcionada para algoritmos de recomendação e modelos de linguagem.
Justiça/Reparação: Há um padrão histórico aqui. O Brasil sempre exportou recursos naturais e importou produtos manufaturados. Agora exportamos energia renovável e importamos… o quê? Serviços de IA que nos tornam mais dependentes, não menos?
Bem Viver: O que significa “viver bem” em um país onde data centers de IA têm prioridade energética sobre comunidades inteiras? O Bem Viver indígena e quilombola — viver em equilíbrio com a terra, em comunidade — é compatível com a lógica extrativista da IA corporativa?
O Que Fazer?
Não se trata de ser contra a tecnologia. O terreiro sempre integrou o novo — o atabaque veio de fora, o telefone celular agora marca o ritmo das festas. A questão não é rejeitar. É exigir.
Exigir que os contratos de energia para data centers incluam cláusulas de benefício comunitário. Exigir que as empresas de IA invistam em formação técnica nas comunidades onde se instalam. Exigir transparência sobre quem se beneficia, quem paga, quem decide.
Exigir que a “soberania digital” do Brasil signifique algo mais do que hospedar servidores estrangeiros em solo brasileiro.
Pergunta Final
Quando a história deste momento for escrita, o que diremos?
Que o Brasil foi “esperto” ao atrair investimentos de Big Tech? Ou que fomos mais uma vez colonizados — desta vez não por navios, mas por cabos de fibra ótica e gasodutos?
A IA vai chegar ao Brasil. A pergunta é: chegará para quem?
O axé da tecnologia pode ser de cura ou de extração. A diferença está em quem segura o fio.
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