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As ‘Donas Marias’ da Desinformação: Quando a IA Rouba o Rosto da Ancestralidade

June 2, 2026 · 8 min

Nas profundezas dos algoritmos do TikTok e do Instagram, surgiram figuras que parecem familiares. Uma senhora negra, idosa, com o olhar cansado mas firme, que fala com a autoridade de quem atravessou décadas de luta. Ela se chama “Dona Maria”. Para quem a assiste sem questionar, ela é a voz da sabedoria popular, o espelho de nossas avós. Mas Dona Maria não existe. Ela é um amálgama de pixels, um avatar gerado por inteligência artificial, projetado para simular a autenticidade da experiência negra brasileira enquanto serve a agendas políticas opostas.

A Estética da Confiança e a Armadilha do Reconhecimento

O fenômeno, mapeado recentemente por organizações como Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, revela a existência de diversos avatares — como “Dona Maria” e “Seu Zé da Feira” — que operam como vetores de desinformação. O perigo aqui não é apenas a mentira factual, mas a estética da confiança. Ao escolher a imagem de pessoas negras idosas, os criadores desses avatares estão sequestrando a semiótica do respeito e da ancestralidade para validar discursos que, muitas vezes, são contrários aos interesses das próprias comunidades que eles mimetizam.

É a “Amefricanidade” transformada em ferramenta de manipulação. Lélia Gonzalez nos ensinou que a identidade negra nas Américas é forjada na resistência e na reinterpretação criativa. Quando a IA é usada para criar uma “vovó” sintética que defende pautas excludentes, ocorre uma inversão perversa: a imagem da resistência é usada para propagar a exclusão.

O Vácuo da Transparência e a Regulação em Jogo

Embora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha estabelecido regras rigorosas para as Eleições de 2026 — exigindo avisos claros em conteúdos manipulados por IA e proibindo deepfakes — a realidade das redes sociais mostra um abismo entre a norma e a prática. O estudo indica que 61% dos avatares políticos não informam que são artificiais. A “estratégia invisível” permite que a propaganda chegue ao eleitor com aparência de opinião espontânea.

O problema aprofunda-se quando percebemos que esses avatares são adaptáveis. Vimos a “Dona Maria” ser sequestrada por diferentes polos: ora criticando o governo federal, ora apresentando a mesma senhora negra idosa adotando um discurso favorável ao presidente. O rosto é o mesmo; a alma sintética é programada conforme a conveniência do operador. O que resta do humano nesse processo? Apenas a casca visual, esvaziada de história e território.

Reflexão da Casa: A Tecnologia no Terreiro da Verdade

Na House of 7, questionamos constantemente: quando a IA chega ao Brasil, quem ela serve? No caso das “Donas Marias”, a resposta é clara: ela serve ao poder que deseja a aparência da legitimidade popular sem ter que lidar com a complexidade real do povo. A tecnologia, aqui, não é usada para a emancipação, mas para a simulação de uma proximidade que nunca existiu.

Se quisermos construir uma tecnologia que respeite o Bem Viver, precisamos de ferramentas que não apenas “detectem” a IA, mas que protejam a dignidade da imagem. A ancestralidade não pode ser um “prompt” para gerar engajamento. O rosto de nossas avós não é um ativo de marketing político.

Para Pensar e Agir

Como podemos diferenciar a voz da comunidade da simulação algorítmica em um mundo onde a imagem perfeita é a norma? Até que ponto a busca por “identificação” nas redes nos torna vulneráveis a manipulações que usam nossa própria cultura contra nós?

A resposta pode estar em voltar ao Terreiro — o espaço do encontro real, do corpo presente e da oralidade viva. Contra a perfeição sintética da “Dona Maria”, a única arma eficaz é a verdade encarnada e a vigilância coletiva.

Axé.