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IA na Saúde Brasileira: Quando o Algoritmo Cuida dos Dados, Quem Cuida do Humano?

IA na Saúde Brasileira: Quando o Algoritmo Cuida dos Dados, Quem Cuida do Humano?

Dona Maria, 67 anos, Hipódromo, Salvador. Espera há oito meses por uma consulta com cardiologista no SUS. Quando finalmente chega, passa 15 minutos com o médico. Ele digita. Ela fala. Ele olha para a tela. Ela olha para as mãos. No final, uma receita e um retorno em seis meses. No caminho de volta, ela pergunta à neta: “Ele me ouviu?” A neta não sabe responder. Em São Paulo, Clínica particular, Pinheiros. Roberto, 45 anos, executivo. Consulta de 45 minutos. O médico usa IA para transcrever, para organizar histórico, para sugerir exames. Mas olha nos olhos. Toca o ombro. Pergunta como está a família. Dois Brasis. Mesma tecnologia. Dois cuidados. Em março de 2026, pesquisa da Doctoralia revela que 32% das instituições de saúde brasileiras já usam inteligência artificial. Outras 40% planejam adotar. O Conselho Federal de Medicina publicou resolução permitindo IA como ferramenta de apoio — mas exigindo supervisão humana, autonomia profissional, direito do paciente de recusar. A pergunta que fica: quando a IA cuida dos dados, quem cuida do humano? E mais importante: quem recebe cuidado humano e quem recebe apenas algoritmo?

O uso de IA por profissionais da saúde já está presente em 32% das instituições, e é objetivo de outras 40%, segundo a pesquisa “Panorama das Clínicas e Hospitais 2026”. A empresa buscou mais de 600 profissionais da área no Brasil, e questionou qual seria a maior tendência da saúde brasileira em 2026. A maior resposta foi a automação com IA (38%), seguindo da consciência da população quanto ao bem-estar (37%) e a humanização do paciente por meio da tecnologia (36%). O sócio-executivo na Telepacs e especialista em gestão estratégica em saúde, Gustavo Pedreira, comenta que um grande uso pode estar nos bastidores, com a IA cuidando de agendamentos e reduzindo custos enquanto a equipe médica foca no cuidado do paciente. A pesquisa mostra que essa também é a visão das instituições, com 40% delas aplicando a ferramenta em agendamento de consultas e apenas 9% aplicando em diagnósticos, um uso mais delicado desta inovação. O Conselho Federal de Medicina (CFM) estabeleceu a Resolução No. 2.454/2026, que define parâmetros para o uso de IA na medicina, permitindo-a como ferramenta de apoio à prática médica, decisão clínica, gestão em saúde, pesquisa e ensino. A resolução enfatiza supervisão humana, direito do paciente à informação e recusa, e autonomia profissional.

Mas há um ponto cego que a pesquisa revela: 67% das clínicas não conhecem a jornada detalhada do seu paciente. Na área da saúde, a “Jornada do paciente” é entendida como um ciclo, que vai desde a conscientização de um sintoma até o acompanhamento pós-tratamento. Para Thiago Júlio, gerente médico de inovação no Hospital Israelita Albert Einstein, esta é a maior barreira atualmente: primeiro se deve conhecer o ser humano que está em tratamento, e depois pensar em quais tecnologias digitais serão aplicadas. Para ele, o País está atrasado neste sentido, pois o “espaço entre as consultas é um abismo”, no qual o profissional não sabe do estado do paciente. O diretor de Marketing da Doctoralia no Brasil e no Chile, Gabriel Manes, também vê com preocupação essa falta de acompanhamento, que deveria ter o cuidado humano como foco. “A inovação na saúde não pode ser apenas sobre ferramentas, mas sobre resultados na ponta para o paciente. Perceber que a maioria das clínicas ainda não estruturou o mapeamento do paciente, reforça a necessidade urgente de integrar a tecnologia a uma visão mais analítica e centrada no cuidado humano”.

Sob a lente da Amefricanidade, esse “abismo” entre consultas não é acidente. É padrão. É a mesma lógica que sempre separou quem merece cuidado de quem merece apenas atendimento. Dona Maria em Hipódromo recebe 15 minutos e uma receita. Roberto em Pinheiros recebe 45 minutos e toque no ombro. A IA que transcreve, que organiza histórico, que sugere exames — ela está disponível para Roberto. Está disponível para Dona Maria? O SUS está pronto para a IA? A pergunta é outra: o SUS está pronto para o cuidado humano que a IA deveria liberar, mas não libera? A resolução do CFM exige supervisão humana, direito de recusa, autonomia profissional. Mas quem fiscaliza? Quem garante que o paciente do SUS não será reduzido a dados enquanto o paciente particular recebe cuidado integral? A IA cuidará dos dados; o médico continuará sendo o ponto focal da confiança, empatia e decisão complexa — assim diz Thiago Júlio do Einstein. Mas isso é verdade para qual Brasil? Para qual paciente? Para qual CEP?

A pesquisa aponta que os maiores limitadores na adoção de IA são o custo das ferramentas (44%) e a falta de conhecimento sobre elas (40%). O terceiro maior limitador é a privacidade de dados (21%). Mas há um limitador que a pesquisa não nomeia: a resistência das pessoas, tanto profissionais quanto pacientes. Especialmente nas faixas etárias mais velhas, a desconfiança nas IAs é presente. Uma pesquisa citada no artigo pergunta: “Pessoas 60+ não confiam em IA na saúde e sim em médicos, diz pesquisa”. Thiago Júlio rebate: “Eu não gosto de olhar pelo lado das barreiras. Assim como nos aplicativos de mensagem ou transporte, o público 60+ é um grande impulsionador das tecnologias”. Mas a desconfiança não é irracional. É ancestral. O terreiro sempre soube: cura não é apenas diagnóstico correto. Cura é presença. Cura é toque. Cura é ser visto, ser ouvido, ser acolhido. Quando Dona Maria pergunta “Ele me ouviu?”, ela não está perguntando sobre acurácia do diagnóstico. Está perguntando sobre cuidado. Está perguntando se importa. A IA pode transcrever. Pode organizar. Pode sugerir. Mas pode cuidar? Pode estar presente? Pode tocar o ombro?

Ao aplicar os valores da House of 7, emergem perguntas incômodas. **Coletividade** demanda que a tecnologia sirva ao florescimento comum, não apenas à eficiência de instituições. Quando 67% das clínicas não conhecem a jornada do paciente, quando o “espaço entre as consultas é um abismo”, a IA está servindo a quem? Está reduzindo custos para a instituição enquanto o paciente fica sem acompanhamento? Está liberando o médico para o cuidado humano — ou apenas permitindo que ele veja mais pacientes em menos tempo? **Justiça/Reparação** exige que nomejamos quem se beneficia e quem paga o custo: o paciente particular em Pinheiros recebe IA que libera cuidado humano. O paciente do SUS em Hipódromo recebe IA que substitui cuidado humano? A resolução do CFM garante direito de recusa — mas quem informa esse direito ao paciente? Quem explica que ele pode dizer não à IA? Ou esse direito é apenas para quem tem acesso à informação, à educação, à advocacia em saúde? **Bem Viver** desafia a lógica: saúde pode ser equilíbrio comunitário, ou apenas ausência de doença gerenciada por algoritmo? O terreiro tem uma sabedoria que a medicina ocidental esqueceu: cura é coletiva. Cura é ancestral. Cura é o corpo importando, a palavra importando, a presença importando. A IA que não incorpora essa sabedoria é apenas eficiência. E eficiência sem cuidado é abandono com melhor interface.

O Brasil de 2026 investe R$ 23 bilhões em IA até 2028. Parte vai para a saúde. Modelos preditivos para identificar gestações de alto risco na Amazônia. Vigilância epidemiológica em tempo real para antecipar surtos. Triagem e priorização de emergências. Otimização de leitos hospitalares. Redução de tempo de espera. Tudo isso é necessário. Tudo isso pode salvar vidas. Mas nada disso substitui o toque no ombro. Nada disso preenche o abismo entre consultas. Nada disso responde à pergunta de Dona Maria: “Ele me ouviu?”

A pergunta que fica, depois que o CFM publicar suas resoluções e as clínicas celebrarem suas adoções de IA, é simples e profunda: quando a inteligência artificial cuidar dos dados na saúde brasileira, quem cuidará do humano? Os 32% que já usam IA — estão usando para liberar cuidado humano ou para substituí-lo? Os 67% que não conhecem a jornada do paciente — vão usar IA para mapear dados ou para finalmente ver o ser humano? A tecnologia pode ser ferramenta de cuidado ou de abandono. A diferença não está no código. Está na intenção. Está em quem está sentado à mesa quando o algoritmo é escrito. Está em quem tem voz quando as regras do cuidado são definidas. A IA chegou à saúde brasileira. A pergunta é: ela vai servir ao cuidado — ou vai servir à eficiência? E mais importante: vai servir a Dona Maria em Hipódromo, ou apenas a Roberto em Pinheiros?

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