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Menos Euforia, Mais Critério: O Novo Momento da IA no Brasil

Menos Euforia, Mais Critério: O Novo Momento da IA no Brasil

Em uma cafeteria de São Paulo, um executivo de tecnologia fecha seu laptop com um suspiro. “Estamos cansados de promessas,” ele confessa. Não é um caso isolado. Nas salas de reunião de startups, nos corredores das universidades e nos debates políticos de Brasília, uma nova postura emerge diante da inteligência artificial: menos fascínio cego, mais avaliação estratégica.

A CES 2026, realizada em janeiro em Las Vegas, cristalizou essa mudança de paradigma. Diferente dos anos anteriores, onde a IA era apresentada como espetáculo, nesta edição a tecnologia assumiu um protagonismo prático, integrada de forma transversal em dispositivos, plataformas e serviços. Analistas brasileiros que acompanharam o evento notaram uma transformação significativa: se 2024 foi o ano da curiosidade com a IA generativa, 2026 marca o momento da maturidade crítica.

Para o Brasil, essa transição carrega significados profundos. Com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) em implementação e investimentos de R$ 23 bilhões previstos, o país precisa decidir como absorver essa tecnologia sem repetir padrões históricos de dependência tecnológica. As preocupações aumentaram: viés algorítmico, alucinações de sistemas generativos e questões de privacidade de dados dominam as discussões técnicas e éticas.

A sabedoria dos terreiros e quilombos oferece uma lente para essa reflexão. Durante séculos, comunidades afro-brasileiras praticaram o que podemos chamar de inovação resiliente: a capacidade de adaptar ferramentas e conhecimentos externos sem perder a integridade cultural. Essa estratégia sincrética de sobrevivência – nem rejeição total, nem adoção ingênua – parece cada vez mais relevante para a relação do Brasil com a IA. Como ensina o princípio da Coletividade, a tecnologia deve servir ao florescimento coletivo, não à extração individual.

A pergunta que fica para os brasileiros é incômoda, porém necessária: estamos construindo uma IA que reflete nossos valores de Bem Viver, ou apenas importando soluções que perpetuam velhas hierarquias com novas interfaces?

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