O Brasil na Terceira Via: Parceiro ou Fornecedor de Dados?
Hoje, 16 de fevereiro de 2026, acontece na Índia o que alguns estão chamando de “Bletchley Park do Sul Global” — a Cúpula de Impacto em IA da Índia, onde o país se posiciona como “Arquiteto Principal da IA para o Sul Global”. Não é retórica vazia. É o anúncio de uma nova arquitetura: a Terceira Via entre a supremacia tecnológica do Vale do Silício e o controle regulatório europeu. E o Brasil, segundo o Roteiro Estratégico Índia-Brasil de 2025-2026, está assinando como parceiro estratégico. A pergunta que São Paulo deveria estar fazendo não é se essa parceria existe, mas o que ela realmente significa. Parceria de quem, para quem, e a que custo?
O Roteiro Estratégico Índia-Brasil é, no papel, o corredor Sul-Sul mais avançado do mundo. Vai além do comércio tradicional e entra em território inédito: “Computação Soberana Conjunta”. A Índia está oferecendo ao Brasil acesso aos trilhos da sua Infraestrutura Pública Digital — o India Stack, que inclui Aadhaar (identidade digital), UPI (interface de pagamentos unificados) e plataformas de saúde. O objetivo declarado é construir uma espinha dorsal digital não proprietária, que não dependa das gigantes tecnológicas do Norte Global. Ao mesmo tempo, o acordo prevê a combinação de capacidades de Processamento de Linguagem Natural da Índia com os conjuntos de dados ambientais e multilingües do Brasil — incluindo contexto de línguas indígenas. O resultado prometido? “IA Inclusiva” que serve comunidades diversas sem depender de modelos de fundação do Norte. Há também a parceria Adani-Embraer, fabricando aeronaves de transporte regional na Índia usando logística e design orientados por IA, descrita como um “templo” desse novo modelo Sul-Sul. Tudo isso sustentado por uma nova arquitetura financeira: o Fundo de IA da África de US$ 60 bilhões, fundos soberanos do Sudeste Asiático e do Golfo mudando de “comprar tecnologia ocidental” para investir em “horizontais nacionais de IA”. A Malásia aprovou US$ 40 bilhões em projetos de data centers em Johor como hub regional de computação para o Sul. O Sul Global está acumulando seu próprio capital, construindo sua própria infraestrutura, negociando seus próprios termos.
Mas de São Paulo, a vista é diferente. Porque o Brasil já tem uma história com infraestrutura pública digital. E essa história tem dois capítulos muito distintos. O primeiro se chama Pix. Lançado em novembro de 2020 pelo Banco Central, o sistema de pagamentos instantâneos é, sem exagero, a infraestrutura digital pública mais bem-sucedida do país. Em menos de cinco anos, Pix se tornou ubíquo — do vendedor ambulante em Recife ao condomínio de luxo em São Paulo, todos usam. É gratuito. É instantâneo. É inclusivo. Funciona porque foi projetado desde o início para servir todo mundo, não apenas quem já tinha conta bancária consolidada. Pix é prova de que o Brasil sabe construir DPI quando há vontade política e design centrado em inclusão. O segundo capítulo se chama inteligência artificial. E esse capítulo conta uma história radicalmente diferente. Como este correspondente documentou na semana passada, a profissão de engenheiro de IA lidera o ranking das que mais crescem no Brasil, com salários entre R$ 19.500 e R$ 27.100 mensais — mas apenas 10,58% das contratações são de mulheres, e as vagas se concentram no eixo Sul-Sudeste. Enquanto isso, quatro em cada cinco trabalhadores temem que a IA impacte suas funções. A automação já está substituindo call centers, caixas de supermercado, atendentes — empregos desproporcionalmente ocupados por mulheres, pessoas negras, moradores de periferias. A infraestrutura de IA no Brasil, até agora, tem amplificado desigualdades existentes, não as corrigido. Então quando a Índia oferece os trilhos do India Stack e o Brasil assina como parceiro estratégico, a pergunta de São Paulo é: esse acordo vai seguir o modelo Pix ou o modelo IA?
A questão não é abstrata. Vamos olhar para o que o Brasil está colocando na mesa. O Roteiro fala em “conjuntos de dados sinérgicos” — as capacidades de Processamento de Linguagem Natural da Índia combinadas com os dados ambientais e multilingües do Brasil. Isso soa como parceria. Mas vamos destrinchar. O Brasil tem a Amazônia — o maior repositório de dados ambientais do planeta. Tem décadas de monitoramento por satélite, dados climáticos, biodiversidade mapeada. Tem também diversidade linguística: português falado por 215 milhões de pessoas, mais centenas de línguas indígenas, muitas delas orais, algumas em risco de extinção. Esses dados têm valor incalculável. A Índia, por sua vez, tem expertise técnica em NLP — já desenvolveu modelos para múltiplas línguas indianas, tem engenheiros, tem infraestrutura de treinamento de modelos. Então a pergunta se impõe: nessa “sinergia”, o Brasil está entrando como parceiro ou como fornecedor de matéria-prima? Estamos oferecendo dados — recursos não renováveis de conhecimento — em troca de acesso a tecnologia desenvolvida e controlada por outro país? Porque se for isso, já vimos esse filme. É a mesma lógica extrativista de sempre, só que agora a commodity não é café, não é minério, não é madeira. É informação. É cultura. É conhecimento ancestral codificado em dados ambientais e línguas indígenas. A diferença é que dessa vez o extrator não é uma multinacional do Norte, é um parceiro do Sul Global. Mas a lógica permanece: nós fornecemos a matéria-prima, eles desenvolvem a tecnologia, e no final quem controla a infraestrutura?
A questão fica mais aguda quando olhamos para o conceito de “Computação Soberana Conjunta”. Soberania digital é um princípio fundamental da tradição política brasileira recente — desde o Marco Civil da Internet até a LGPD, há uma insistência em que dados de brasileiros devem ser governados por brasileiros. Mas o que significa “soberania conjunta”? Se os servidores rodam em infraestrutura compartilhada Índia-Brasil, onde fica a soberania quando há desacordo? Se os modelos de IA são treinados usando datasets brasileiros mas a expertise técnica é majoritariamente indiana, quem tem poder de auditoria? Quem decide o que é um uso aceitável? E, mais importante: quem tem a capacidade técnica de realmente entender o que está acontecendo dentro desses sistemas? Porque soberania nominal sem capacidade técnica de auditoria e governança não é soberania. É dependência com marketing melhor. E o Brasil tem experiência de sobra com dependência disfarçada de parceria. A diferença, mais uma vez, é apenas que o parceiro agora está em Mumbai, não em Mountain View.
Aqui é onde a lente da Amefricanidade torna-se indispensável. O conceito de Coletividade — central à tradição afro-brasileira — exige que perguntemos: para quem serve essa parceria? Se a Terceira Via constrói infraestrutura de IA que beneficia as elites técnicas de São Paulo e Mumbai enquanto automatiza o trabalho das Fernandas em call centers de ambos os países, então o que mudou? A Fernanda do meu artigo da semana passada — 34 anos, atendente de call center, R$ 2.100 por mês, substituída por “assistente virtual inteligente” — ela ganha alguma coisa com a Terceira Via? Ou apenas o nome do sistema que a substituiu muda de inglês para hindi e português? A Justiça/Reparação nos força a perguntar quem paga o custo dessa transformação. A Índia se posiciona como “Arquiteto Principal”. Ótimo. Mas arquiteto de que estrutura, exatamente? Se é uma estrutura que perpetua desigualdades regionais — concentrando desenvolvimento de IA em Bangalore, Mumbai, São Paulo, Rio — enquanto o Nordeste brasileiro e o interior da Índia continuam à margem, então não é Terceira Via. É Primeira Via com nova geografia. E o princípio do Bem Viver — viver bem, em equilíbrio, em comunidade — nos lembra que tecnologia que não serve ao florescimento coletivo não é progresso, é extrativismo. Mesmo quando o extrator fala nossa língua, compartilha nosso passado colonial, se apresenta como parceiro do Sul Global.
Há, é verdade, sinais de que a Terceira Via pode ser diferente. O Sul Global está inovando em “arquiteturas enxutas” — IA projetada para escassez de recursos, não para impressionar o Vale do Silício. Na África, modelos como o InkubaLM (Lelapa AI) servem cinco línguas africanas rodando em muito menos capacidade computacional que modelos do Norte. O Crane AI Labs em Uganda desenvolve modelos nativos em suaíli usando “texto sintético verificado” por especialistas locais. A filosofia é: construa o que serve comunidades, não o que maximiza parâmetros. Se a parceria Índia-Brasil seguir essa lógica — se os modelos forem projetados para rodar em infraestrutura acessível, se o treinamento incluir genuinamente línguas indígenas brasileiras com participação de comunidades originárias, se os casos de uso forem saúde pública, educação, agricultura familiar, não maximização de lucro corporativo — então talvez, talvez, a Terceira Via seja realmente diferente. Mas não há nada automático nisso. Pix funcionou porque foi projetado para inclusão desde o primeiro dia. A infraestrutura de IA até agora no Brasil amplificou desigualdades porque foi projetada por e para elites. A Terceira Via vai para onde a projetarmos.
E aqui está a parte que ninguém quer dizer em voz alta, mas que São Paulo precisa ouvir: a Terceira Via não existe em isolamento. A Índia e a França estão co-presidindo aspectos dessa arquitetura. 2026 é o “Ano Índia-França da Inovação”. Mesas redondas bilaterais estão alinhando a Infraestrutura Pública Digital indiana com a “IA centrada no humano” francesa, oferecendo a nações africanas um “híbrido pré-validado”: trilhos indianos com certificação francesa. O que isso significa? Que a Terceira Via não é isolacionista. Não é uma rejeição total do Norte. É uma renegociação dos termos de engajamento. E isso pode ser bom — pode significar melhores salvaguardas, mais accountability, menos risco de captura corporativa. Mas também significa que a Terceira Via não nos livra da necessidade de fazer as perguntas difíceis sobre poder, controle e quem realmente se beneficia. Apenas muda a geografia de onde essas perguntas são feitas.
Lucas — o engenheiro de IA de 29 anos em Pinheiros, R$ 24 mil por mês, trabalho remoto — provavelmente está animado com a Terceira Via. Mais investimento em IA no Sul Global significa mais oportunidades para ele. Fernanda — 34 anos, zona leste, trabalho que já foi automatizado — provavelmente nem sabe que a Cúpula está acontecendo. E essa assimetria de atenção, de acesso à informação, de poder de moldar o futuro, é exatamente o problema. A Terceira Via pode construir infraestrutura tecnológica diferente. Mas se não construir infraestrutura social diferente — educação que prepare Fernandas para o mundo da IA, não apenas Lucases; redes de proteção que amparem quem a automação substitui; mecanismos de governança que deem voz a quem está fora do eixo técnico — então a Terceira Via é só mais uma via expressa. E vias expressas, como São Paulo sabe bem, servem quem pode pagar o pedágio.
Então aqui está a pergunta que o Brasil deveria estar fazendo hoje, enquanto a Cúpula acontece em Mumbai e o Roteiro Estratégico é celebrado como marco civilizacional: a Terceira Via nos leva para onde, exatamente? Somos parceiros nessa jornada ou fornecedores de combustível para a viagem de outros? E quando chegarmos ao destino — seja lá onde for — quem estará lá? Só os Lucases, ou também as Fernandas? Porque se a resposta for “só os Lucases”, então não importa se a via é Primeira, Segunda ou Terceira. Ainda estamos construindo estradas que deixam a maioria para trás. E um país que já tem fratura social insustentável não pode se dar ao luxo de adicionar mais uma camada de exclusão, mesmo que dessa vez ela venha embrulhada em solidariedade Sul-Sul e promessas de soberania digital. Promessas a gente já ouviu. O que São Paulo quer ver são os trilhos chegando até a periferia. E até lá, a pergunta permanece aberta.
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