Quem Ganha e Quem Perde: A Grande Divisão na Era da IA no Brasil
São duas histórias que acontecem ao mesmo tempo, na mesma cidade, separadas por quinze quilômetros e um abismo que não cabe no mapa. De um lado, há Lucas, 29 anos, engenheiro de IA recém-contratado por uma fintech em Pinheiros, salário de R$ 24 mil mensais, trabalho remoto três dias por semana, benefícios que incluem curso de especialização pago pela empresa. De outro, há Fernanda, 34 anos, atendente em um call center na zona leste, salário de R$ 2.100, que chegou no trabalho segunda-feira e descobriu que metade da equipe foi substituída por um “assistente virtual inteligente” e que, nas palavras do gerente, “quem ficar vai precisar se adaptar ou procurar outra coisa”. Lucas e Fernanda moram na mesma São Paulo. Mas não vivem no mesmo Brasil. E a inteligência artificial está ampliando a distância entre os dois a cada mês que passa.
Os números contam uma história de oportunidade e exclusão simultâneas. Segundo dados divulgados pela Forbes Brasil em fevereiro de 2026, a profissão de engenheiro de IA lidera o ranking das que mais crescem no país, impulsionada pela explosão da IA generativa. O LinkedIn identificou a posição como a de maior crescimento no mercado de trabalho brasileiro. Os salários, segundo o Guia Salarial Robert Half 2026, variam de R$ 19.500 a R$ 27.100 mensais — valores que colocam esses profissionais entre os mais bem remunerados do país. A flexibilidade é outro diferencial: em 2025, cerca de 63,55% das vagas eram remotas e 13,55% híbridas. As ofertas de emprego relacionadas a “agentes de IA” dispararam 1.587% em um único ano. Para quem está dentro desse círculo, a IA é sinônimo de mobilidade social, estabilidade financeira e reconhecimento profissional. É o futuro que funciona.
Mas esse círculo é muito pequeno. E muito desigual. Apenas 10,58% das contratações para engenheiros de IA em 2025 foram de mulheres. O tempo médio de experiência exigido para a posição é de três anos e meio, o que pressupõe acesso prévio a educação superior de qualidade, estágios em empresas de tecnologia e domínio de ferramentas como Python, PyTorch e TensorFlow — uma trajetória concentrada em grandes centros urbanos, majoritariamente no eixo Sul-Sudeste, e em estratos sociais com capital cultural e econômico suficiente para investir em formação especializada. Enquanto isso, do outro lado do abismo, uma pesquisa global da Randstad divulgada em janeiro de 2026 mostrou que quatro em cada cinco profissionais acreditam que a inteligência artificial vai impactar suas tarefas diárias no ambiente de trabalho. A Geração Z está entre as mais preocupadas. E com razão: empresas em todo o mundo estão intensificando cortes de empregos, substituindo funções de baixa complexidade e caráter transacional por automação. A IA que promete criar está, ao mesmo tempo, eliminando. E quem está sendo eliminado raramente é quem está sendo contratado do outro lado.
A geografia dessa divisão é brutal. São Paulo, Rio de Janeiro e, em menor escala, Belo Horizonte e Curitiba concentram a esmagadora maioria das vagas de alta remuneração em IA. O Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste — regiões onde a base educacional em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é historicamente mais frágil — ficam à margem. A expansão dos cursos de IA pelo Sisu, coberta por este correspondente em janeiro de 2026, mostrou que Minas Gerais oferece oito cursos enquanto a região Norte oferece um. Quando a principal porta de entrada para as profissões mais bem pagas do século XXI está concentrada em poucas cidades, o resultado não é mobilidade social. É reprodução de desigualdade com roupagem tecnológica. E dentro das próprias cidades, a divisão se repete: os cursos técnicos e de graduação de qualidade ficam nas zonas centrais e nos bairros de classe média e alta. Jovens da periferia precisam atravessar a cidade — quando conseguem — para acessar formação que lhes permita competir por essas vagas. Muitos desistem no meio do caminho. Não por falta de talento. Por falta de tempo, dinheiro e estrutura para sustentar a jornada.
E a exclusão tem cor e gênero. Embora os dados brasileiros sobre raça na área de IA ainda sejam escassos, a lógica é conhecida: em um país onde apenas 28,8% dos jovens negros entre 18 e 24 anos estão no ensino superior, contra 47,9% dos jovens brancos (dados do IBGE de 2023), a sub-representação de negros nas carreiras de alta especialização técnica é estrutural. Quando apenas uma em cada dez vagas de engenheiro de IA vai para mulheres, e quando sabemos que mulheres negras enfrentam barreiras ainda maiores de acesso a STEM, o que estamos vendo não é um “gap de habilidades”. É o funcionamento esperado de um sistema que nunca foi projetado para incluir todo mundo. A IA está criando uma nova aristocracia do conhecimento — e ela é, majoritariamente, masculina, branca, do Sudeste e de classe média-alta. Enquanto isso, quem sustenta a economia de cuidado, quem trabalha em call centers, quem faz atendimento em lojas, quem opera caixas de supermercado — trabalhos desproporcionalmente ocupados por mulheres, por pessoas negras, por moradores de periferias — está descobrindo que a automação chega mais rápido para eles do que as oportunidades de requalificação.
A própria indústria reconhece o problema, mas oferece soluções que perpetuam a exclusão. Daniel Lázaro, líder de dados e IA da Accenture na América Latina, afirmou à Forbes que existe “uma escassez crítica de profissionais capazes de lidar com sistemas complexos e os desafios éticos da IA”. A resposta recomendada? Cursos pagos de especialização — a Udacity, citada no artigo, oferece “Nanodegrees” de Machine Learning e AI Product Management, muitas vezes desenhados com parceria de gigantes do Vale do Silício. Mas esses cursos custam caro. E pressupõem que o profissional já tenha a base educacional, o tempo livre e o capital financeiro para investir em requalificação. Para Lucas, em Pinheiros, com graduação em Ciência da Computação e três anos de experiência prévia em desenvolvimento de software, a transição para engenharia de IA é uma progressão natural. Para Fernanda, que terminou o ensino médio em escola pública, trabalha dez horas por dia e sustenta dois filhos sozinha, a ideia de “fazer um Nanodegree” é tão realista quanto aprender a pilotar um foguete. A solução individual — “qualifique-se ou fique para trás” — ignora que o acesso à qualificação é, em si, desigual. E ao ignorar isso, a narrativa transfere a responsabilidade da exclusão para o excluído.
Julie Teigland, vice-presidente global da EY, ofereceu uma perspectiva mais honesta ao Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro de 2026. Ela afirmou que as empresas não obterão ganhos de produtividade com a IA a menos que invistam em pessoas de verdade e redesenhem a forma como o trabalho é feito. Estudos da EY indicam que cerca de 81 horas de treinamento por funcionário, combinadas com o redesenho das funções, podem se traduzir em aproximadamente 14% de aumento semanal de produtividade. Mas — e esse “mas” importa — isso exige investimento. “Não há retorno sobre o investimento se você não estiver disposto a mudar as descrições dos cargos”, disse Teigland. Em outras palavras: a IA pode ser ferramenta de transição justa, mas apenas se as empresas pagarem por isso. E no Brasil, onde a cultura empresarial historicamente trata trabalhadores como custo variável a ser minimizado, onde a informalidade atinge 39% da força de trabalho e onde a rotatividade é altíssima, quantas empresas vão investir 81 horas de treinamento em cada funcionário? Quantas vão redesenhar funções em vez de simplesmente demitir e automatizar? A resposta, para a maioria dos Fernandas do país, já está clara: nenhuma.
Aqui é onde a lente da Amefricanidade revela o que o discurso corporativo esconde. O conceito de Coletividade — central à tradição afro-brasileira — nos obriga a perguntar: para quem serve essa transformação? Se a IA cria riqueza concentrada em poucos enquanto precariza o trabalho de muitos, então não estamos diante de “progresso”. Estamos diante de extrativismo tecnológico — a mesma lógica colonial de sempre, agora com interface digital. A questão da Justiça/Reparação se impõe: quem paga o preço da automação? No Brasil, como sempre, são os mesmos. As mulheres negras que limpam escritórios enquanto robôs aprendem a atender clientes. Os jovens da periferia que não tiveram escola de qualidade e agora descobrem que o mercado de trabalho exige Python e TensorFlow. Os trabalhadores do Nordeste que veem as vagas de tecnologia se concentrarem no Sudeste, perpetuando a desigualdade regional que remonta à divisão entre casa-grande e senzala, entre quem extrai valor e quem tem o valor extraído. E o princípio do Bem Viver — viver bem, em equilíbrio, em comunidade — nos força a encarar a pergunta mais incômoda: o que significa “progresso tecnológico” se ele torna a vida pior para a maioria? Se Lucas prospera enquanto Fernanda é descartada, isso não é avanço. É aprofundamento de fratura social que já era insustentável.
A pesquisa da Randstad capturou o sentimento no ar: quase metade dos entrevistados teme que a IA beneficie mais as empresas do que a força de trabalho. E eles estão certos. A Accenture fala em “ecossistemas de agentes de IA autônomos” que executam tarefas complexas. A EY fala em funcionários migrando de “executar a tarefa” para “supervisionar a tarefa”. Mas ninguém está falando em garantir que todos tenham acesso a essa transição. Ninguém está propondo que as empresas que lucram com automação paguem pela requalificação massiva dos trabalhadores que estão substituindo. Ninguém está discutindo se o Estado brasileiro deveria taxar a automação para financiar educação em IA em larga escala nas periferias, no Nordeste, no Norte. A narrativa permanece a mesma: “adapte-se ou morra”. Responsabilidade individual. Meritocracia. Como se mérito pudesse florescer sem solo fértil. Como se todos tivessem começado da mesma linha de largada.
A verdade é mais dura. O Brasil está criando uma economia de IA de dois andares. No andar de cima, uma elite técnica bem remunerada, com flexibilidade, segurança e futuro. No andar de baixo, um exército de trabalhadores precarizados, substituíveis, descartáveis, cujo valor está sendo sistematicamente reduzido pela automação. E a distância entre os dois andares não para de crescer. Quando uma profissão paga R$ 27 mil mensais e outra paga R$ 2 mil — e a IA está fazendo a primeira crescer enquanto devora a segunda — não estamos falando de “transformação digital”. Estamos falando de redistribuição de poder, riqueza e dignidade. E essa redistribuição está indo em uma direção muito específica: para cima, para o centro, para quem já tinha.
Lucas, em Pinheiros, provavelmente não pensa muito em Fernanda, na zona leste. Ele não é cruel. Apenas está ocupado aprendendo a orquestrar agentes de IA, construindo carreira, aproveitando um momento de oportunidade histórica. E é justo que ele aproveite. O problema não é Lucas. O problema é um sistema que oferece a Lucas tudo que nega a Fernanda, e que chama isso de progresso. O problema é que estamos construindo o futuro da IA no Brasil sem perguntar quem fica de fora. Sem perguntar se um país já profundamente desigual pode se dar ao luxo de criar mais uma camada de exclusão. Sem perguntar se existe um caminho diferente — um onde a riqueza gerada pela automação financia a educação de quem está sendo automatizado, onde empresas que cortam empregos pagam pela transição de quem perdeu a vaga, onde o critério de sucesso não é quantos engenheiros de IA formamos, mas quantos brasileiros conseguem viver com dignidade na economia que a IA está criando.
Será que Lucas e Fernanda vão continuar morando na mesma cidade, mas vivendo em Brasis cada vez mais distantes? Ou vamos decidir que uma transição justa — aquela que serve ao bem viver coletivo, não ao lucro individual — vale a pena ser construída, mesmo que custe mais caro, mesmo que seja mais lenta, mesmo que exija das empresas e do Estado um compromisso com quem sempre ficou para trás? A resposta que dermos nos próximos anos vai definir que tipo de país a IA está construindo. E se esse país ainda merece ser chamado de coletivo.
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