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Cursos de Inteligência Artificial Sextuplicam no Sisu: Expansão ou Ilusão?

Cursos de Inteligência Artificial Sextuplicam no Sisu: Expansão ou Ilusão?

Na semana em que 1.496 jovens brasileiros disputam vagas em cursos de inteligência artificial pelo Sisu, uma pergunta ecoa pelos corredores das universidades federais: estamos formando profissionais ou reembalando diplomas? A oferta de bacharelados em IA saltou de 4 para 27 em um único ano, um crescimento de mais de seis vezes impulsionado pelo Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.

O movimento reflete uma política deliberada do MEC, que através do programa Universidades Inovadoras e Sustentáveis apoiou a criação de 45 cursos com foco em IA, totalizando 3.004 vagas. Minas Gerais lidera com oito graduações, enquanto a região Norte conta com apenas uma opção—a UFT no Tocantins, que inova com um modelo interdisciplinar conectando IA a bioeconomia, saúde digital e agronegócio amazônico. Na UFG, o curso de inteligência artificial já superou medicina como o mais concorrido da universidade.

Mas a velocidade da expansão gera alertas. Anderson Soares, professor do Instituto de Informática da UFG, observa que parte das novas graduações pode se tornar apenas uma reorganização de disciplinas existentes sem a infraestrutura necessária para formação prática. A escassez de docentes especializados e laboratórios equipados coloca em risco a qualidade do ensino—não adianta abrir portas se o que há por trás delas é uma formação vazia.

Do ponto de vista da Coletividade e Justiça que orientam o Bem Viver, a pergunta central é: quem terá acesso real a essa formação e quem ficará com os diplomas sem substância? A concentração de cursos no Sudeste reproduz desigualdades históricas. E se a IA já opera com vieses que prejudicam populações negras e periféricas, formar profissionais sem consciência crítica pode amplificar esses danos. A democratização do acesso precisa vir acompanhada da democratização da qualidade.

Enquanto o Brasil celebra a multiplicação de vagas, resta saber se estamos plantando sementes de soberania tecnológica ou apenas colhendo diplomas que o mercado não reconhecerá. Será que as universidades estão preparadas para formar os profissionais que o país precisa, ou estamos assistindo a uma corrida por números que deixará estudantes pelo caminho?

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